O segredo da Pedra da Gávea
Nesta postagem reproduzo o texto do blog "http://semeandoconhecimento.com.br", onde Eymar da Cunha Franco descreve um relato incrível ocorrido no início do século na cidade do Rio de Janeiro, o texto nos leva a um imaginário fantástico.
O SEGREDO DA PEDRA DA GÁVEA
Estávamos no ano de 1931, quando vim a travar
conhecimento com um personagem que logo à primeira vista impressionou-me
sobremaneira. Alto, esbelto, testa ampla, olhos castanhos escuros e
penetrantes, rosto alongado por espessa barba negra e irradiava em seu redor
uma corrente de simpatia que logo nos cativava. Senhor de uma inteligência viva
e de uma cultura invulgar, F (chamemo-lo
assim) era, não obstante, modesto e simples. Ouvi-lo era um prazer, pois discorria
com fluência sobre os mais intrincados temas filosóficos, religiosos e
científicos, chegando a fascinar. Suas revelações relacionadas com a história
antiga, a tradição dos povos do passado, suas crenças, mitos, lendas etc., eram
surpreendentes. Ele tinha o dom de nos fazer rever os nossos conceitos e buscar
novas luzes para a solução de certos enigmas históricos. Com perfeição nos
demonstrava o curso das civilizações, suas conquistas, suas lutas, seus
declínios. Fazia-nos seguir a marcha do homem através do tempo, acompanhando a
marcha do sol e o rodar do zodíaco. Acabou me convencendo que eu precisava
reformular os meus conhecimentos históricos.
Para F o Brasil
estava destinado a servir de berço a uma formidável civilização, que seria o
fecho de ouro de um movimento étnico iniciado há milhares de anos, na antiga
Aryavarta ou Índia, quando para ali foram conduzidas as sementes humanas,
salvas do dilúvio, que sepultou no fundo do mar, a Atlântida, país lendário,
mas que em verdade teria existido realmente e onde se desenvolveu uma cultura e
uma civilização de grande esplendor.
Desempenhava eu nessa altura a função de jornalista
em um grande jornal carioca e, já por força de ofício e por interesse íntimo,
buscava com frequência a companhia de F, disso resultando
estabelecer-se uma fraternal amizade entre nós. Assim foi que fiquei sabendo
que F era membro de uma Instituição Esotérica e que
ali era onde ele obtinha os extraordinários conhecimentos que possuía.
Certa tarde F apresentou-me
a um outro personagem ainda mais invulgar sob certos aspectos de que ele
próprio. Possuidor de uma inteligência prodigiosa e de conhecimentos
formidáveis, esse homem parecia ser o centro para onde convergiam numerosas
“linhas de força” e de onde emanavam outras tantas, que estabeleciam sobre mim
um impacto que muito me perturbava. Sentia-se em sua presença um estranho
fascínio, embora a sua pessoa nada apresentasse de peculiar que fosse capaz de
nos impressionar. Baixo, gordo, nariz aquilino, cabelos ralos, mãos nervosas,
olhar inquieto que raramente se detinha sobre as pessoas. Aquele personagem
evocava à minha memória uma efígie de Cagliostro, que havia visto certa vez.
Nas raras oportunidades que eu encontrei esse amigo
de F fiquei sumamente interessado na sua pessoa e
pude deduzir que era mais sábio que F, que o tratava com
uma deferência e respeito, semelhante àquele que o discípulo tem pelo seu
mestre. Era um homem simples, trajava-se com modéstia, embora estivesse sempre
muito bem posto e impecavelmente asseado. Falava com desenvoltura e segurança
digna de nota sobre os mais variados assuntos. Os relacionados à história,
arte, religião e mitologia, eram os preferidos. Algumas vezes nos surpreendia
ao relatar episódios que não figuravam nos tratados, que eram abordados de maneira
superficial, enquanto que os tratava de maneira muito mais completa. Lembro-me
que certa vez ele me disse:
—Nada
mais falso do que a história universal que se ensina nas escolas. Essa história
não serve sequer como ponto de partida para se elaborar a verdadeira.
Dever-se-ia até proibir o ensino dessa disciplina tal como está, pois ela é
muito pior do que os mitos e as fábulas, uma vez que estes encerram grandes
verdades veladas, enquanto a história corrente é toda constituída de fatos
deturpados que para nada valem.
Foi num de meus encontros habituais com F, que ele me surpreendeu com uma passagem, para mim
desconhecida da historia do Brasil, mas logo se recusou a me fornecer maiores
detalhes, alegando que o assunto não podia ser tratado em minúcias. Devo
confessar que F, embora fosse uma pessoa bastante
sincera e liberal, sempre mostrava uma delicada reserva sobre certos temas
relacionados com os princípios esotéricos que professava. Muitas vezes eu o
notei reticente e esquivo, dando-me respostas vagas ou simplesmente ignorando
minhas interpelações, quando a nossa conversa descambava para esses assuntos.
Aquilo
me intrigava profundamente, pois não conseguia compreender essa sua maneira de
agir, pois julgava que ele usava desses artifícios para me manter curioso ou
para engrandecer-se aos meus olhos, porém, quando via o riso franco e os modos
gentis e despretensiosos, sentia-me envergonhado dos meus próprios pensamentos,
pois ele poderia ser tudo, menos um vulgar mistificador. Sua inteligência, sua
franqueza e sua amizade eram genuínas e não havia laivos de malícia ou orgulho
em sua pessoa.
Certa vez surgiu junto com F um terceiro personagem que me foi apresentado
por ele como se chamando Josué. Era mais uma
figura singular em meu caminho. Caladão, olhar severo e penetrante, limitava-se
durante os nossos raros encontros a ouvir-nos. Jamais o encontrei sozinho, de
maneira que muito me surpreendeu quando certa vez ao sair da redação do jornal
em que eu trabalhava, encontrei-o à minha espera na calçada da frente.
Abordou-me sem cerimônias e convidou-me para andar um pouco, pois desejava
falar comigo. Lado a lado, iniciamos nossa caminhada e durante esta é que vim a
saber de seus intuitos. Sua conversa foi franca e direta:
—
O senhor, nos últimos meses, tem sido atentamente observado por nós e
inconscientemente recebeu uma soma apreciável de conhecimentos que não se deve
perder.
Espantei-me
com o tom de suas palavras, da mesma maneira que me irritou a declaração de que
eu fora objeto de atenta observação por parte de alguém. Tive ímpetos de
perguntar-lhe quem eram esses que me observavam e com que finalidade.
Contive-me, preferindo deixá-lo dizer o que tinha para falar.
Ele
prosseguiu:
— Lembra-se daquela passagem sobre a Pedra da
Gávea, quando F disse que ali se ocultava um
terrível segredo da história deste país?
Respondi-lhe que sim e recordei-lhe o meu desagrado
diante do sigilo que F havia
guardado sobre o assunto.
Josué
replicou-me:
—
Pois é exatamente sobre esse tema que desejo lhe falar e se possível confiar à
sua pessoa toda essa história. Para o fazer preciso antes obter de sua parte o
compromisso de que não a divulgará até que seja autorizado a fazê-lo. Aliás,
nem tudo que for relatado poderá ser divulgado e o senhor terá que arranjar um
meio de assim o fazer.
—
O senhor espanta-me! – disse-lhe eu -. Que história será essa que precisa ser
ciosamente guardada? Afinal de contas, que poderá haver de misterioso nela que
o senhor pretenda revelar?
—
Vê-se bem que o senhor é um jornalista – voltou ele -. Sempre disposto a
relatar o que sabe ou ouve, sem medir as consequências que uma divulgação possa
trazer. Por causa desse modo de agir, por parte de alguns, muitos tesouros se
perderam e a humanidade ficou privada de valiosas informações. Permita que eu
lhe lembre alguns fatos.
—
Quando os egiptólogos chegaram ao Egito e começaram a pesquisar, muitos dos
tesouros já haviam desaparecido e muitas informações se haviam perdido pela
cobiça de aventureiros de toda espécie. Muitos desses egiptólogos estavam
movidos pela cobiça e não tinham a formação necessária para entender aquilo que
estava diante de seus olhos. Leram inscrições que não entenderam, interpretaram
símbolos erroneamente e terminaram por mutilar a história de um povo que,
apesar de sua grandeza, passou a ser encarado pelo mundo moderno de maneira
inteiramente diversa daquilo que realmente foi. Muitos outros tesouros
permanecem ocultos porque de permeio com eles, existem bens materiais que
despertam a ambição dos homens.
Josué
calou-se e continuou a caminhar em silêncio, enquanto eu me detinha a pensar no
que ele me havia dito. Por fim, interroguei:
—
O senhor acha que sou diferente? Julga que eu também não sou vulnerável à
cobiça e à fama?
—
Não creio que o senhor seja imune a essas coisas, mas sim que será capaz de
entender o significado do que desejo mostrar-lhe e relatar-lhe, a ponto de
guardar sigilo sobre o assunto até quando a sua divulgação já não trouxer
qualquer prejuízo a quem de direito.
Aquela
conversa me preocupava e eu não estava preparado, por isso sentia-me embaraçado
e sem saber o que dizer ou pensar. Agradeci a Josué o conceito que fazia sobre
minha discrição, embora me sentisse ligeiramente magoado com a sua rude
franqueza sobre as minhas debilidades. Não externei qualquer reação. Por fim
arrisquei uma pergunta e tão logo a formulei, arrependi-me de o haver feito.
—
E se depois de conhecer aquilo que deseja confiar-me, não cumprir o compromisso
que vier a assumir consigo?
Josué
deteve-se como se tivesse recebido um golpe. Eu também me detive diante de sua
atitude e ficamos a encarar-nos em silêncio por alguns instantes. A sua
fisionomia havia adquirido uma rudeza extrema e seus olhos, fitando os meus,
eram frios como os de uma serpente. Seus lábios apertados tremiam ligeiramente.
—
O senhor seria capaz de faltar à sua palavra? – perguntou ele.
Diante
de sua mudança, fiquei visivelmente embaraçado e procurei remendar o que havia
dito.
—
Eu apenas aventei uma hipótese – arrisquei contrafeito. Afinal de contas eu
poderia como jornalista que sou não resistir à tentação de falar e terminar
divulgando aquilo que o senhor me tivesse dito. Nesse caso, que teria eu a
perder? O senhor arriscaria tudo e eu nada. Acho que se o que tem para dizer-me
é tão importante como parece, será melhor que nada me diga e guarde o seu
segredo para si e livre-se de um risco inútil.
Josué
pareceu pesar longamente as minhas palavras e vi em seu rosto o reflexo de uma
luta interior. Depois de alguns instantes, ele voltou a falar.
—
Sim, o senhor tem razão! Melhor seria calar, mas infelizmente nós temos que
correr esse risco! Não pergunte por que o fazemos, pois seria inútil lhe
explicar e as nossas razões lhe pareceriam sempre absurdas e fantásticas.
Não
sei por que, mas naquele momento senti uma espécie de piedade por aquele homem.
Havia algo em sua pessoa que parecia estar submetido a uma terrível ansiedade.
Ele, contudo, não parecia ser um homem capaz desse sentimento, pois ao mesmo
tempo podia-se perceber em seu íntimo um poder, uma força ou alguma coisa
estranha que eu não entendia, mas que bem poderia ser traduzido por
autossuficiência, como se ele bastasse a si próprio.
Havíamos
chegado a um impasse em nossa conversa e um de nós deveria tomar a iniciativa e
eu o fiz.
—
Tranquilize-se quanto a isso, sou capaz de manter a minha palavra. Neste
momento eu a empenho ao senhor! Posso perfeitamente guardar o seu segredo e,
além disso, espicaçou a minha curiosidade e acenou-me com uma futura liberação
do compromisso.
A
fisionomia de Josué abrandou-se um pouco e ele soltou uma espécie de suspiro.
—
Se não houvesse fortes razões para pedir-lhe o que pedi, não o faria – disse
ele em seguida. Um dia saberá das minhas razões e dar-me-á a sua absolvição
pela maneira insólita com que estou agindo.
—
E como saberei que o meu compromisso de nada dizer, chegou ao fim? – atalhei,
querendo desviar o curso de nossa conversa.
O
olhar de Josué animou-se e ele respondeu com um leve sorriso:
—
Quanto a isso, não se preocupe, o senhor o saberá, sim, pois não teria sentido
fazê-lo participar de um segredo que não devesse a ser divulgado um dia.
Josué
deteve-se como a procurar o que dizer e por fim tomou uma outra resolução:
marcou comigo um novo encontro para daí a uma semana. Em seguida, sem mais
explicações, despediu-se de mim e caminhou apressado por uma rua lateral,
deixando-me sozinho e cheio de interrogações.
Os dias se escoaram lentamente diante de minha
impaciência em tornar a encontrar Josué. Nesse espaço de tempo também
desapareceu dos lugares habituais a figura simpática de F a quem eu estava ansioso por encontrar, na
esperança de que ele me fornecesse mais esclarecimentos. Mas o único recurso
que tive foi procurar esquecer o que havia passado, mergulhando nas minhas
atividades rotineiras. No dia aprazado, ao sair da redação, lá estava Josué à
minha espera. Era a mesma figura enigmática, reservada, tranquila, mas se podia
perceber que tivera uma semana bastante trabalhosa, pois o seu rosto
demonstrava certo cansaço. Cumprimentou-me com cordialidade e sem mais rebuços
perguntou-me se eu tinha um dia disponível para acompanhá-lo em uma excursão.
Achei
a sua proposta estranha, mas disse-lhe que isso era possível, perguntando-lhe
em seguida aonde iríamos. Ele encolheu os ombros e disse que iríamos a Pedra da
Gávea. Pediu-me apenas para levar comigo uma lanterna e alguns sanduíches, pois
talvez passássemos o dia por lá.
Marcamos um novo encontro para daí a dois dias, às
cinco horas da manhã, numa das esquinas do centro comercial. No dia e hora
aprazados, lá estava eu a sua espera, não sem antes ter cientificado minha
esposa do lugar para onde ia e na companhia de quem me encontrava, embora esta
última informação de nada lhe servisse, pois ela jamais havia posto os olhos em
Josué. Disse a ela que se tratava apenas de uma excursão e dei-lhe ainda a
pista para encontrar F, caso eu não
regressasse ao fim do dia. Eu não queria arriscar-me.
Josué
apareceu guiando um velho Ford e parecia bastante satisfeito. Acompanhei-o e lá
fomos nós em direção a Barra da Tijuca (naquela época um lugar agreste e de difícil
acesso). Enquanto demandava nosso destino, Josué começou a relatar-me a
seguinte história:
No
ano de 850 a.C. partiu da Fenícia, sob o comando do rei Badezir, que então
governava aquela nação mediterrânea, uma numerosa frota bem equipada, com o
propósito de fundar um novo império em uma terra longínqua, que ficava além das
Colunas de Hércules (o estreito de Gibraltar). Nessas terras distantes, haviam
aportado as naus fenícias em suas incursões marítimas e de lá traziam o ouro, a
prata, pedras preciosas, madeiras, peles de animais e muitas raridades da fauna
e da flora. Várias feitorias já haviam ali sido implantadas e um comércio
regular se tinha estabelecido entre os fenícios e os nativos da região. A
inspiração para aquela aventura viera do Sumo Sacerdote do Templo de Baal, em
Tiro, que cientificou o rei da necessidade de fundar-se naquela região
distante, um grande império e transferir-se lentamente grande parte da
civilização fenícia e até mesmo a corte, o que consolidaria definitivamente o
poder fenício naquelas longínquas paragens. Badezir, que há muito acalentava o
sonho de expandir seus domínios e que vivia cheio de curiosidade em torno dos
relatos que lhe faziam seus capitães quando regressavam de suas longas
excursões, não teve dúvidas e sem demora organizou aquela expedição, nela
incorporando, por instigação do Sumo Sacerdote, o seu filho primogênito e sua
jovem esposa, pois aos mesmos é que deveria caber o novo império, para que ali
iniciassem também uma nova dinastia. Segundo as notícias que chegavam a Tiro,
as terras de além-mar eram imensas e cheias de riquezas inexploradas, sendo que
o ouro era facilmente encontrado à flor da terra. O clima era ameno e o solo
riquíssimo, regado por rios caudalosos e navegáveis e a costa era cheia de
angras e baías, que ofereciam abrigos ideais para as naus de todos os portes.
E
continuou:
—
Habitavam a região diversas tribos indígenas que falavam um dialeto que muito
se assemelhava ao fenício. Muitas dessas tribos haviam ali chegado por
intermédio dos próprios fenícios, que os retiravam de uma terra que habitavam
nas Caraíbas e que o mar estava destruindo pouco a pouco. Essas tribos estariam
intimamente ligadas à Fenícia por laços de estreito parentesco e fácil seria
incorporá-las ao império, uma vez que em uma época remota, tanto os fenícios
como os antepassados daqueles indígenas, haviam participado de uma grande
Confederação de Nações Unidas sob o estandarte de um personagem que seria o Rei
e Sacerdote KAR, dando origem ao grande tronco dos Karios ou Kurios. Esse nome
mais tarde teria dado origem ao termo Carioca (ou Kario-Ka). A viagem de
Badezir durou muitos dias, mas foi coroada de pleno êxito. A frota aportou sem
percalços ao seu destino, não só devido à perícia dos capitães, como aos
maravilhosos conhecimentos astronômicos de um sacerdote do templo que
acompanhava o rei e servia de preceptor a Yet-Baal, ao qual amava como se fora
seu próprio filho.
E
continuou:
—
O local escolhido para tornar-se a metrópole do futuro reino, situava-se onde
hoje se ergue a cidade de Niterói, nome esse que nada mais seria do que a
corruptela de Nish-Tau-Ram, de origem muito mais arcaica, com o significado de
“O caminho percorrido pelo Sol”. Ali já existia uma grande feitoria, a qual
desenvolvia intenso comércio com os nativos e apresentava todas as condições
estratégicas para ser alcançado o objetivo da empresa. Instalados, os monarcas
começaram a trabalhar para a fixação e a expansão do novo reino. Badezir,
fascinado com tudo que via, estava disposto a ampliar seus objetivos, abrindo
novas feitorias, com o fim de aumentar ainda mais o comércio com os nativos da
região. Várias naus foram construídas com recursos locais e incorporadas à
frota e mesmo assim, eram insuficientes para dar vazão aos recursos acumulados.
E
a narração continuava:
—
Tudo corria da melhor maneira, quando ocorreu uma tragédia que poria fim aos
sonhos de Badezir. O agente dessa tragédia se ocultava lá para o interior e há
muito aguardava a hora propícia para desfechar o seu golpe. Esse agente era o
pajé de uma obscura tribo, que desde o princípio não vira com bons olhos a
intromissão dos fenícios naquelas paragens. Essa tribo era constituída de homes
de “face negra”, e entregavam-se às mais baixas formas de ritos demoníacos,
entre os quais se destacavam os sacrifícios humanos. Os integrantes das demais
tribos os temiam e forneciam-lhe as vítimas para esses sacrifícios, como uma
forma de tributo imposto pelo terror. Com a chegada dos fenícios, as tribos
pacíficas viram uma forma de libertarem-se daquele domínio diabólico, e pouco a
pouco ganhavam ânimo para se rebelarem contra aquela forma de tributo que lhes
era imposta de maneira cruel. Para aumentar ainda mais o ódio e o medo do pajé
dos “Caacupês” (esse era o nome da tribo perversa), havia a figura do sacerdote
fenício, preceptor de Yet-Baal, o qual era possuidor de extraordinários poderes
mágicos. Esse sacerdote da Alta Magia, que fora o apanágio dos hierofantes caldeus
e egípcios, era uma espécie de guia espiritual da expedição, e o rei Badezir
nada fazia sem antes consultá-lo. A oportunidade esperada pelo pajé dos
Caacupês, para afugentar aquele invasor indesejável, apresentou-se quando
Kut-Bel, acompanhado de Badezir, seguiam em viagem para o norte. Há muito ele
estava perfeitamente bem informado de todos os passos de Yet-Baal e de seus
hábitos. Sabia que o jovem e sua esposa, com frequência atravessavam a baía em
uma pequena embarcação e vinham pousar numa vivenda campestre, que possuíam nas
proximidades do atual Outeiro da Glória. Numa dessas ocasiões, ser-lhe-ia fácil
agir com os meios que possuía, sem necessidade de arriscar-se a um confronto
mais direto com aquele ágil guerreiro. Não era em vão que ele desfrutava de um
grande prestígio no seio da sua tribo galgando o posto de pajé. Entre os seus
múltiplos poderes estava o de invocar os “elementos” por meios mágicos, segredo
esse que guardava para as grandes necessidades. Certa manhã as condições
estavam propícias aos seus fins; sorrateiramente o pajé foi colocar-se sobre o
seu ponto de observação favorito, que era o atual Pão de Açúcar, de onde com
seu aguçado olhar, acompanhava a veloz barquinha de Yet-Baal cruzar a baía ao
sopro da brisa marinha. Ali, encarrapitado e munido dos seus instrumentos
diabólicos, começou a invocar os “elementos da natureza”, tão logo percebeu que
a barca singrava o mar. Suas intenções surtiram efeito: uma densa névoa começou
a formar-se à entrada da baía, avançando celeremente até recobri-la com seu
impermeável véu. Ao mesmo tempo, a brisa que soprava, parou, provocando a
imobilização da pequena barca, que com velas murchas mal progredia. Dentro de
poucos minutos, Yet-Baal e sua esposa estavam totalmente mergulhados naquele
denso nevoeiro cinzento, sem poderem orientar-se quanto ao rumo a seguir. Pouco
a pouco o barquinho e seus passageiros foram arrastados pelas correntes para o
mar aberto, onde imensas vagas bramiam contra os rochedos da costa. A força dos
remos era insuficiente para vencer a correnteza e sem nada ver, o fenício
terminou naufragado.
Eu
estava estonteado com a narração e pedi que continuasse.
—
Embora excelentes nadadores, tanto ele como sua esposa e o casal de escravos
núbios que sempre os acompanhavam, perdidos no meio do denso nevoeiro que os
envolvia por todos os lados e lutando contra o mar agitado, terminaram por
perecer afogados. Seus corpos foram dar na costa, nas imediações da Pedra da
Gávea, e ali foram recolhidos pelos nativos que os conduziram para a feitoria.
Procedeu-se ao embalsamento dos mesmos, de acordo com a tradição, e foram
conservados em câmara ardente, até a chegada do rei Badezir e Kut-Bel, o que
ocorreu poucos dias depois. O desespero do monarca foi grande, maior ainda foi
o do sacerdote, ao saber da morte de seu pupilo e de sua esposa, em condições
tão trágicas. Imediatamente passou a tomar todas as providências, para dar ao
casal de príncipes um túmulo à altura de suas hierarquias. Era preciso que a
posteridade perpetuasse Yet-Baal, e que repousasse num túmulo digno das glórias
de seu povo. Kut-Bel, movido por uma dose de superstição, entendeu que o local
para o sepultamento de seu pupilo, deveria ser o mais próximo possível do ponto
onde seu corpo fora encontrado. Começou a explorar a circunvizinhança,
terminando por encontrar uma extensa gruta, em uma montanha que se estendia até
o mar, resolvendo que ali é que deveria proceder ao referido sepultamento.
Todos os recursos foram mobilizados e centenas de homens foram postos a
trabalhar na abertura de uma galeria no seio da rocha, dando prosseguimento
àquela, já ali trabalhada pela própria natureza. No final da mesma, foi
preparada a câmara mortuária. Terminado esse trabalho interno, iniciou-se o
trabalho externo, o qual consistiu em talhar na montanha a figura da esfinge
fenícia, o Touro Alado. Essa figura colossal, pode ainda ser vista na Pedra da
Gávea, onde à altura da orelha direita da esfinge, Kut-Bel mandou gravar em
grandes caracteres a seguinte frase: “Yet-Baal, Primogênito de Badezir – Tiro –
Fenícia”. Mas Kut-Bel não se limitou apenas a dar ao seu pupilo um túmulo
adequado. Por meios que Josué não explicou, ele veio a saber que o autor
daquela desgraça fora o seu inimigo mortal, o terrível pajé dos Caacupês, e
jurou que aquele crime não ficaria sem punição. Usando de um ardil, Kut-Bel
conseguiu atrair o pajé para um lugar adequado e entre os dois travou-se uma
feroz batalha, em que as armas usadas não foram aquelas utilizadas pelos homens
comuns. Como resultado final, o pajé terminou mergulhado em profundo estado
cataléptico, sendo conduzido por Kut-Bel para um lugar que previamente lhe
estava destinado. Esse lugar ficava no próprio Pão de Açúcar, de onde o
maléfico pajé provocara a morte de Yet-Baal. Ali, numa estreita gruta
artificial, o corpo do pajé foi emparedado. Kut-Bel não podia matá-lo, pois se
o fizesse, violaria as regras de sua Ordem, mas poderia mantê-lo prisioneiro
naquelas condições, tendo, porém, que pagar por isso um elevado preço, conforme
vim a saber mais tarde.
E
continuou relatando:
—
Badezir, desolado com a perda de seu filho, deixou-se mergulhar em profunda
melancolia e foi nesse estado de alma que um segundo golpe o atingiu. Da
metrópole lhe chegara através de súditos leais, a notícia de que seu trono
havia sido ocupado por um usurpador, e que todos aqueles que lhe eram
dedicados, foram banidos e mandados para além-mar, para fazerem companhia ao
monarca, que deveria se considerar exilado e não mais regressando a Tiro.
Diante desse segundo desastre e já sem ânimo para permanecer no local, Badezir
reuniu a maior parte de sua gente e rumou para o norte, desaparecendo da
história para sempre. Correm notícias de sua morte e de seu sepultamento na
região amazônica. Kut-Bel também desapareceu de cena sem deixar vestígios, porém,
a seu respeito, uma surpresa me estava reservada.
Havíamos
chegado ao nosso destino; abandonamos o carro em que viajávamos e nos dirigimos
para um local situado próximo ao mar. Josué caminhava à minha frente em
silêncio e eu o seguia rememorando os fatos que ele acabara de relatar-me. A
estrada já havia ficado para trás e nós seguíamos uma trilha que contornava
aquele formidável maciço de granito que é a Pedra da Gávea. Diante de meus
olhos, agora abertos, a figura severa da esfinge parecia fitar-me com um olhar
pouco amistoso. Em tudo reinava um silêncio profundo, ressaltado pelo marulhar
longínquo das ondas quebrando nos rochedos distantes. Eu caminhava absorto sem
imaginar bem o que estava fazendo ali.
Quando
Josué se deteve próximo à imensa parede de pedra da montanha, foi que pareci
voltar à realidade. Pediu-me que o aguardasse um momento e afastou-se por entre
os arbustos. Dentro de poucos instantes, voltou e pediu-me para segui-lo. Creio
que foi certificar-se se estávamos em segurança.
Juntos
voltamos a caminhar pelo meio do mato, percorrendo o mesmo itinerário que ele
havia percorrido antes. Depois de caminhar alguns metros, chegamos a uma
abertura natural da rocha. Essa abertura estava bem oculta e dificilmente
alguém a veria, mesmo passando por perto. Josué penetrou na gruta e convidou-me
a segui-lo. Estávamos numa espécie de túnel, bastante espaçoso, que se perdia
em profunda escuridão. Acendemos nossa lanterna e começamos a aprofundarmo-nos
por aquele caminho sinuoso, escavado no seio da montanha. Depois de alguns
passos, notei que o mesmo começava a subir e assim prosseguiu por uma longa
extensão. Finalmente nos detivemos diante de uma parede que me pareceu ser o
final de nossa jornada. Josué, contudo, não pensava assim. Abaixou-se e começou
a tatear aqui e ali, até que por fim conseguiu deslocar uma pedra do piso, que
parecia perfeitamente aderida ao solo. Removida a pedra, apareceu uma pequena
abertura retangular, no fundo da qual surgiu ante o meu olhar curioso uma
argola de bronze, perfeitamente conservada. Josué chamou-me e pediu-me que o
auxiliasse a puxar aquela argola. Assim o fiz e depois de um penoso esforço,
notei que a mesma se deslocava um pouco. Imediatamente um ruído surdo e
prolongado se fez ouvir. Alguma coisa se moveu na parede. Erguemo-nos e foi
então que percebi que um enorme bloco de pedra havia girado sobre um eixo
invisível, deixando à mostra outra abertura. Penetramos por aí e Josué
advertiu-me que andasse com mais cuidado, pois o piso dali para diante estava
muito escorregadio.
Pude
realmente observar que pequenos filetes de água escorriam das paredes laterais
umedecendo o chão, o qual por sua vez estava recoberto de musgos cinzentos que
desprendiam um odor bastante desagradável. Eu, intimamente, estava apreensivo
com aquela aventura que havia me metido na companhia de um homem tão esquisito
quanto Josué. Por isso eu o mantinha sob constante vigilância, nunca lhe dando
as costas, embora achasse infantil aquela maneira de proceder. Depois que
penetramos nesse segundo túnel, o ar se tornou irrespirável, o calor que já era
grande, aumentou ainda mais. Nessa altura eu já começava a recear não poder
suportar por muito tempo àquelas condições e estava a ponto de pedir a Josué
para voltarmos, mas o interesse em ver finalmente aonde chegaríamos, fez-me
fazer da fraqueza força, e continuei a caminhar naquele horrível corredor, onde
a escuridão era tão grande que parecia absorver a própria luz que nossas
lanternas projetavam à nossa frente.
Finalmente
aquele homem, que parecia perfeitamente à vontade naquele lúgubre ambiente, se
deteve. Estávamos diante de uma nova parede rochosa, que mais uma vez parecia
significar o fim de nosso caminho. Josué, contudo, pediu-me para recuar uns
passos e o deixasse trabalhar. Disse-me para apagar a minha lanterna e que não
a acendesse, fosse qual fosse o motivo, até que ele o determinasse. Obedeci-lhe
sem qualquer protesto. Em verdade eu já não me sentia com forças para esboçar
qualquer resistência. Recuei uns passos e apaguei a lanterna e para minha surpresa,
Josué fez o mesmo à sua, deixando-nos mergulhados na mais espantosa treva.
Os
minutos se escoaram com irritante lentidão e eu não saberia avaliar quanto
tempo permanecemos naquelas condições. O silêncio era absoluto e eu nem sabia
se Josué ainda estava ali. Minhas forças pareciam chegar ao fim e a cabeça
rodava, enchendo-me de náuseas. Finalmente à minha frente começou a esboçar-se
uma tênue claridade esverdeada, que parecia escoar-se de uma porta aberta. No
centro da mesma estava a figura impassível do meu companheiro, chamando-me com
um aceno de mão. Aproximei-me como um autômato, até colocar-me rente a ele.
Estávamos realmente em uma espécie de portal aberto no rochedo, eu podia olhar
para dentro de um espaçoso salão, perfeitamente enxuto e iluminado por aquela
estranha luz esverdeada. Entramos naquele salão e não pude conter uma
exclamação de assombro. No centro do mesmo viam-se dois esquifes, cor de âmbar,
dispostos lado a lado, exatamente sob uma espécie de lâmpada fluorescente, de
onde emanava aquela luz esverdeada.
Encostados
às paredes laterais e exatamente em ângulo reto com os esquifes centrais,
viam-se mais dois, dispostos um de cada lado. Rente a uma das paredes estava
uma graciosa barquinha muito semelhante às gôndolas genovesas. Dois vasos de
alabastro, finamente decorados, repousavam no chão escuro de pedras.
O
meu espanto diante daquilo que via, não tinha limites. Aturdido, eu começava a
julgar-me vítima de uma alucinação. Olhei para Josué e mais aumentou a minha
inquietação, pois ele, sob forte emoção, chorava. Respeitei o seu silêncio,
esperando que ele me dirigisse a palavra. Por fim, pareceu recuperar-se e
disse-me para aproximar-me dos esquifes centrais. Obedeci como um sonâmbulo e
pude então contemplar diante de mim, como que adormecidos, os corpos de um
casal de jovens, de rara beleza. Serenos, com as faces tranquilas, talvez
devido à pintura que lhes teria sido aplicada nos rostos, não mostravam a
palidez dos cadáveres. O homem aparentava ter de 20 a 25 anos, tendo o rosto
alongado, que terminava em um queixo em ponta, mostrando um tom escuro de barba
sob a pele. Estava vestido unicamente com um calção justo, preso à cintura por
uma larga faixa de seda vermelha que formava um laço, cujas pontas caíam à
frente, sobre a região pubiana.
A
jovem aparentava ter de 18 a 20 anos e era também de fronte morena, embora de
um tom mais claro que a de seu companheiro. Seu rosto era belo, nele
destacavam-se as enormes fendas que as pálpebras formavam com os olhos fechados
o que me fez supor, que eles eram grandes e rasgados. A boca possuía os lábios
carnudos, pintados de um vermelho cintilante, que sob aquela luz esverdeada
tomava uma tonalidade ligeiramente violácea. Os cabelos eram negros e sedosos,
apesar dos séculos ou quiçá milênios, ainda brilhavam refletindo a luz. Vestia
uma túnica amarela inteiriça, ligeiramente cingida ao colo por uma fita
vermelha, que descia ao longo do corpo até os pés pequeninos, que calçavam
sandálias prateadas.
Numa
das paredes havia inscrições em caracteres para mim desconhecidos, ocupando um
belo espaço da mesma. Interrogado por mim sobre o que diziam, Josué recusou-se
a falar, dizendo-me que era melhor que eu os ignorasse.
Os
outros dois esquifes estavam fechados e não me foi dado ver o que continham.
Eram de qualidade bem mais inferior que os do centro do salão e Josué disse-me
conter os corpos dos servos do casal.
Quanto
à barquinha, pude examiná-la detidamente, embora hoje muitos detalhes se tenham
apagado de minha memória. Lembro-me apenas que o seu toldo era esmaltado de
azul e em seu centro havia uma espécie de coxim, forrado de veludo vermelho.
Era construído de madeira escura e mostrava sinais de haver sido bastante
utilizada. Dentro da mesma, um par de longos remos estava depositado ao
comprido.
Josué
interrompeu minha inspeção, fazendo-me voltar para o seu lado. Até então se
mantivera calado, como para dar tempo que eu saciasse a minha curiosidade. Um
fato que me chamou a atenção foi que naquela câmara mortuária, respirava-se um
ar perfeitamente suportável e não havia aquela opressão abafada que se sentia
nos corredores que a ela conduziam.
—
Grave bem na memória o que acaba de ver – disse Josué. – O senhor foi a única
pessoa, além de mim, que esteve aqui depois que esses corpos foram
transportados para cá. Dia virá em que terá de relatar o que viu; oxalá o faça
sem dar asas à fantasia ou imaginação.
Diante
do meu silêncio, prosseguiu:
—
Vê essa luz? Os homens não acreditarão que o senhor a tenha visto e eu lhe digo
que este é o mistério de não haverem encontrado vestígios de fumaça de tochas,
nas câmaras das pirâmides egípcias. Os sacerdotes daquele país, simplesmente
não as usavam. Eles conheciam a maneira de produzir essa luz que nunca se apaga
e nem produz fumaça. Se algum dia, porém, este santuário for profanado, no
mesmo instante essa luz se extinguirá e ali no teto ver-se-á apenas um círculo
grosseiro de pedras.
Eu
não sabia o que responder e desse modo mantive-me calado. Josué então
prosseguiu:
—
Esses corpos que aí estão, pertencem a Yet-Baal e a sua esposa. As “essências”
que os animaram já percorreram vários corpos. Algumas vezes elas vieram juntas
em um mesmo corpo, outras vezes em corpos separados. As tradições de todos os
povos falam nessa maravilhosa parelha humana, a qual encerra um dos maiores mistérios
da história da humanidade. Há milhões de anos elas se manifestaram pela
primeira vez na terra, como a parelha primordial, de cuja união nasceu uma
categoria de seres perfeitos, dos quais, por sua vez, surgiram outras
linhagens, que até hoje se perpetuam e das quais os homens vulgares nada sabem.
A história de Adão e Eva, não é apenas uma alegoria; atrás da mesma se oculta
uma inacreditável realidade.
E
continuou:
—
A missão dessa parelha, também chamada de “Gêmeos Espirituais” em algumas
tradições, é tão misteriosa que não pode ser relatada a profanos. Na enigmática
Atlântida, foram conhecidos como Mu-Iska e Mu-Ísis. No Egito, foram conhecidos
como Osíris e Ísis, os quais, ao contrário do que pensam os historiadores, não
eram apenas deuses mitológicos, mas seres reais. Na Grécia, foram cantados como
Castor e Polux, Hélios e Selene. Em Roma, aparecem como Rômulos e Rêmulus, cuja
história verdadeira, mutilada pela ignorância humana, é outra completamente
diferente. No império Inca, foram conhecidos como Manco-Capac e Mama-Oclo ou
Mama-Coya. Entre os Chibichas, na Colômbia, foram Bochicha e sua esposa. No
Gênese mosaico, foram denominados de Adam e Heva, tidos como os pais da
humanidade, embora não se diga de qual “humanidade”, uma vez que na terra
existe mais de uma, se bem conhecemos a sua história. Esses Gêmeos Espirituais,
de idade em idade, de século em século, vêm se manifestando na Terra para
preservação de uma semente eterna, de um embrião ou germe que jamais pode
perecer. E ai do mundo que ele se perdesse, seria a sua ruína total.
E
Josué continuou:
—
Muitas dessas manifestações essenciais passam despercebidas dos homens ou se
confundem com outros personagens menos importantes. Eu poderia indicar-lhe
milhares dessas manifestações, mas isso agora é impossível. Basta o senhor
consultar a mitologia, a história, as tradições, lendas de todos os povos, e
encontrará ali as provas do que lhe afirmo. Yet-Baal e sua esposa, cujos corpos
aí estão, foram uma das manifestações e a missão que tinham naquela época, eram
de resgate.
Explicou-me
ainda:
—
Quando, há um milhão de anos, desapareceu numa terrível catástrofe um
continente com sua portentosa civilização, uma parte do mesmo foi poupado e
essa parte ocupava uma substancial porção do território brasileiro. Aqui, sete
ilhas se destacavam aflorando do mar. Lá para o norte, na região do Parimã e do
Roncador, estavam as principais. À leste, a atual ilha de Itaparica também aflorava
em pleno mar, sendo o seu tamanho bem maior do que é hoje. Aqui mais ao sul,
outras ilhas se destacavam, sendo de notar-se a Serra do Espigão, com sua
misteriosa Vila Velha, e mais esta região compreendendo Teresópolis, Petrópolis
e circunvizinhanças. Uma parte da Serra da Mantiqueira também aflorava ali mais
para o oeste. Naqueles recuadíssimos tempos a geografia terrestre era
completamente diferente do que é hoje. A Cordilheira dos Andes nasceu naquela
época e o mar banhava tanto pelo Pacífico como pelo Atlântico, sendo que nessa
plataforma, que se estende de lá para cá, afloravam as ilhas de que acabo de
falar. Nas mesmas, uma substancial população se havia salvo da catástrofe, e os
mais sábios, aqueles que haviam sido os expoentes da raça, terminaram por
reunirem-se em uma portentosa organização completamente isolada dos demais.
Estabeleceram o seu quartel general em um misterioso rincão, cuja exata
localização me é vedado dizer, bastando que lhe diga que quando em 1925 o
célebre Coronel Fawcett desapareceu do cenário do mundo, ele se encaminhava
para esse local. Essa, porém, é uma outra história que não vem ao caso relatar.
Josué
continuou a falar:
—
Com o passar dos séculos, as águas começaram a recuar e os remanescentes
daquele grandioso povo, que não pertenciam àquela organização primordial, já
altamente corrompido, foi se localizando nas novas terras. Com os restos de
cultura que possuíam, foi possível a algumas tribos organizar núcleos
progressistas, de cujo testemunho existem espalhados por todo o Brasil,
vestígios os mais evidentes e que são tomados pelos arqueólogos modernos como
mero capricho da natureza. Mas o germe do mal que habita a alma desse povo não
havia perecido, e as guerras que travaram entre si, na prática de atos
animalescos, terminaram fazendo com que aquele surto de progresso fosse
interrompido, e pouco a pouco entrassem na mais completa decadência, até
perderem todo o saber de seus antepassados e tornarem-se naquilo que hoje
vemos: pobres selvagens vivendo nas florestas, guardando em suas lendas,
pálidas recordações de um tempo glorioso. Enganam-se redondamente aqueles que
julgam os índios brasileiros indivíduos primitivos em vias de progresso. Eles
são, na verdade, pobres vergônteas de um grandioso tronco que se perdeu depois que
mergulhou na mais atroz concupiscência e desregrou-se no uso da ciência que
havia acumulado.
Josué
calou-se um instante, como que para concatenar as suas ideias. Eu o contemplava
sem nada dizer, embora estivesse louco para sair daquele lugar.
—
Como me é penoso e difícil relatar-lhe todas essas coisas. O senhor não pode
entender tudo o que desejava transmitir-lhe, pois vive em um mundo que ignora
totalmente a sua própria história e os profundos segredos que ela encerra. Mas,
assim mesmo vou arriscar-me num esforço para fazer-me entendido.
Josué
prosseguiu:
—
Em nosso mundo, no conceito vulgar, punir ou castigar o que pratica o mau
contra outrem ou contra a sociedade, é uma operação de justiça e para tanto
fizeram leis que os homens aplicam sem sentirem-se culpados. Nós, contudo,
sabemos que não é assim. Quando, por motivo extremo, temos que aplicar uma
punição em alguém, sabemos que nessa mesma ocasião assumimos uma
responsabilidade do resgate do punido, mediante o sacrifício espontâneo, do
qual não poderemos nos livrar, sob pena de contrariarmos uma lei universal e
termos que arcar com penas ainda mais pesadas. Essa é uma lei natural e
enganam-se os que julgam poder livrar-se dela. Foi justamente em função desta
Lei que tanto sofrimento temos colhido. Aquele que possuindo em suas mãos o
poder e que decretou a destruição de todo o continente, com seus reis
decadentes, com seus homens e mulheres corruptas e perversas, tem também que
resgatá-los e repô-los em sua dignidade primitiva. Ele simplesmente poderia não
ter intervindo e deixar que os maus destruíssem a si mesmos, porém a sua
piedade e o seu amor pelos que permaneciam justos e fiéis aos princípios da Boa
Lei, fizeram com que, atendendo aos seus rogos, interviesse em favor dos
últimos, determinando a destruição daquela terra empestada pela maldade e
transformada num grande “curral anímico”.
E
continuou contando:
—
Antes determinou a saída dos melhores e várias correntes migratórias tiveram
lugar no último século, antes da catástrofe. Umas foram para o Oriente, através
da Europa e são chamados povos pelasgos (os que vinham do mar). Outros foram
para o Ocidente e durante alguns séculos floresceram nas culturas maias,
astecas etc. Muitos permaneceram naquele continente maldito, de permeio com a
violência e o deboche que caracterizava a maioria. Esses pereceram também,
quando chegou a hora trágica.
Josué
calou-se por um longo tempo e com um suspiro completou:
—
A Atlântida, também chamada país de Mu, Kiteah etc. não foi destruída apenas
por causas naturais. Outras forças foram postas em ação, algumas tão terríveis
que em um minuto poderiam arrasar nações inteiras. Essas energias repousam no
imo da matéria e quando libertas são incontroláveis em sua força destruidora.
—
Como lhe disse – prosseguiu – restos desse colossal continente permaneceram à
superfície depois que a maior parte afundou sob as águas. Alguns desses restos
ocupam posições diversas, onde hoje se situa o território brasileiro. O resgate
desta região se faz necessário e há séculos vem sendo tentada. Esses jovens que
o senhor aí vê são o que resta de uma frustrada tentativa. Eles deveriam fundar
aqui e fazer prosperar um grande império calcado na justiça e na verdade, e a
ele incorporar os remanescentes daquele povo cuja pátria havia sido destruída, oferecendo-lhes
uma oportunidade para se reerguerem moral e socialmente, integrados em uma nova
comunidade organicamente perfeita. Infelizmente, apenas uma parte daquelas
sementes originárias do fruto malsão havia adquirido, com o passar dos
milênios, uma condição melhor e com alegria acolheu aqueles que vinham
libertá-los da ignorância em que viviam. Outros preferiram continuar vivendo
nas velhas fórmulas do passado. Haviam perdido a capacidade de praticar o mal,
calcado na ciência de seus antepassados, porém continuavam tão apegados ao
obscurantismo nas suas formas mais vis, que logo buscavam todo o qualquer
esforço libertador que até eles chegassem. Essa foi a razão pela qual
aniquilaram Yet-Baal e sua esposa.
Josué
calou-se mais uma vez. Seu rosto severo assumia enquanto falava um aspecto
ainda mais duro, e seus olhos pareciam desprender lampejos, quando se referia a
certos personagens. Por fim prosseguiu:
—
Por causa disso, por haverem cometido mais esse atentado contra os que
procuravam redimi-los, foi que eu, por conta própria, tomei a resolução de
puni-los na pessoa de seu chefe, assumindo uma terrível responsabilidade
perante a Lei. O quanto esse meu passo me tem custado em sofrimentos, ninguém
pode avaliar! O isolamento e o esquecimento dos séculos passaram sobre mim, na
mais atroz solidão, pois eu lhe digo agora, eu fui e sou Kut-Bel – arrematou
Josué.
Diante
daquela declaração abrupta eu não pude conter um movimento instintivo e meu
corpo estremeceu, uma espécie de vertigem se apossou de mim e senti-me naquele
instante profundamente angustiado. Positivamente eu estava diante de um
demente. Como poderia ele fazer-me crer que aquele Kut-Bel que havia vivido
segundo ele, há mais de dois mil anos, fosse o mesmo homem que eu tinha diante
de mim? A partir daquele instante eu não tinha mais dúvidas de que a minha vida
corria perigo, e instintivamente apertei a lanterna que tinha nas mãos. Era a
única arma que eu possuía para defender-me. A minha reação não passou
despercebida a Josué. Vi-lhe no rosto um lampejo de desprezo e um sorriso vago
de comiseração. Ele parecia divertir-se às minhas custas.
Disse
Josué com voz tranquila:
—
Compreendo perfeitamente aquilo que se passa consigo, eu posso ler seus
pensamentos mais íntimos. Acalme-se! Eu não sou o louco perigoso que o senhor
julga e nem a sua vida corre perigo algum.
Sem
saber o que lhe responder, guardei silêncio, limitando-me a olhá-lo nos olhos.
Neles não encontrei qualquer sinal de agressividade e isso me tranquilizou um
pouco.
—
A revelação que acabo de fazer-lhe é realmente inusitada e o senhor não estava
preparado para tanto. Apesar disso o que eu lhe disse é a pura verdade. Eu sou
Kut-Bel e a minha ciência me permitiu conservar a vida até hoje, não só para
tragar até a última gota do meu cálice de sofrimentos, como para manter acesa
uma chama que não deve apagar-se, sob pena de jamais haver a operação de
resgate de que lhe falei.
Josué
fez uma pausa e prosseguiu:
—
Daqui precisamente há 25 anos, nós nos encontraremos outra vez. Nessa ocasião o
senhor terá um papel importantíssimo a desempenhar junto ao governo deste país.
Esta sua missão será tanto mais importante quanto alterará definitivamente os
rumos a serem seguidos pelo povo brasileiro, com repercussão no mundo inteiro.
Eu
estava sem saber o que dizer diante daquele homem estranho que me fitava com
seu olhar penetrante e que parecia ver o futuro com tanta segurança, como se
ele já fosse o presente.
—
Para completar tudo que lhe disse, devo acrescentar que também tenho vários
nomes e personalidades. Durante muito tempo eu fui conhecido como o “Ermitão da
Glória”. Aliás, eu sempre estive nesta região, desde os tempos de Yet-Bal. Ali
no Outeiro da Glória cumpri um duplo papel: o de “Guardião deste Santuário” e
de mantenedor do grande culpado que eu emparedei vivo ali no Pão de Açúcar. Ao
puni-lo, da maneira que fiz, fiquei preso àquele malvado e responsável por sua
vida. Pelos séculos afora ele tem vivido às minhas expensas, adormecido e
incapaz de praticar o mal. Eu devo visitá-lo periodicamente, despertá-lo
momentaneamente de seu sono letárgico, a fim de não perecer e fazê-lo dormir
novamente, até que se cumpram determinados eventos, quando então ganhará
definitivamente a liberdade e eu também estarei liberto. O Gigante Adormecido
voltará, quem sabe, a aterrorizar os mares e eu partirei em peregrinação para
juntar-me aos da minha própria estirpe.
Josué
calou-se uma vez mais e em seu rosto havia um misto de tristeza e alegria.
Eymar da Cunha Franco

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